Domingo, Abril 29, 2007

Novo filme de Martin Scorcese adapta o "Silêncio" de Shusaku Endo. Obra sobre a vida de missionários Jesuítas portugueses no Japão, no séc. XVII.

Em meados da década de 90 descortinei numa feira de livros em saldos no Porto um livro de um autor japonês que até ao momento apenas conhecia de nome e algumas suas linhas biográficas.

O livro era o "Silêncio" (Chinmoku) e o seu autor era Shusaku Endo. Por sinal era uma publicação brasileira que só por engano ali foi parar. O original foi escrito em 1966 e esta era tradução brasileira datada de 1979 pela editora Civilização Brasileira. Em 1990 saiu a 1ª edição portuguesa pela D. Quixote / Círculo de Leitores (trad. João David Antunes, sendo já 4ª ed. de 1995 traduzida por Teolinda Gersão)

Shusaku Endo é considerado um dos maiores romancistas japoneses e o "Silêncio" é a sua obra-maior, que inclusive granjeou o reputado prémio literário Tanizaki. Endo publica o seu primeiro livro em 1955 e desde então publicou regularmente até perto da sua morte em 1996. O seu estilo de escrita é comummente associado a Graham Greene, que aliás o considerava um dos maiores escritores do séc. XX. Endo professava o catolicismo num país onde menos de 1% o é.

O "Silêncio" aborda as grandes atrocidades cometidas pelo japoneses a missionários jesuítas (no caso do livro sobretudo a portugueses) e a milhares de devotos do cristianismo, no Japão, sobretudo na ilha de Kyushu (a ilha primaz no cristianismo japonês), no séc. XVII. É um livro que contém passagens bastante pungentes e que durante muito anos suscitou razoável polémica no Japão, mesmo da parte de alguns cristãos japoneses.



Breve contexto histórico
Os jesuítas chegaram ao Japão em 1549 através do desembarque Kagoshima (ilha de Kyushu) pelo basco S. Francisco Xavier. O cristianismo floresceu por essas paragens a um ritmo impressionante, sobretudo por acção do missionário italiano Alessandro Valignanno. Tanto que cerca de seis décadas volvidas o número de católicos no Japão (maioria na ilha de Kyushu) já rondava os 300 mil e a sua influência na sociedade e politica era bem pronunciada.

Toyotomi Hideyoshi o senhor da ilha de Kyushu (e mais tarde o grande senhor de todo o Japão e o responsável pela sua unificação) manteve boas relações com os jesuítas (que divisava com um nível cultural acima da média e estreitamente ligados a negócios mercantis) e até via de bom grado as conversões ao catolicismo por parte dos japoneses (até porque odiava o budismo). Muitos dos próprios daimios se convertiam, bem como seus súbitos. Formou-se mesmo uma Igreja japonesa nativa, com um largo clero japonês, e com colégios, seminários, hospitais, etc. Tanto que este período foi chamado por certos historiadores o século cristão japonês.

Contudo em 1597 Hideyoshi teve necessidade de evidenciar o seu poder e autoritarismo e mandou crucificar 26 missionários cristãos entre europeus e japoneses no porto de Nagasaki. Se efectivamente esse episódio não prejudicou as boas relações que os jesuítas tinham com a corte nipónica, foi um primeiro (e bem intimidador) sinal que as coisas poderiam mudar bruscamente. Apesar de um período algo conturbado no Japão que se sucedeu após a morte de Hideyoshi os governantes que lhe sucederam mantiverem boas relações com os jesuítas e os cristãos em geral.

Já o shogun Tokugawa Ieyasu, não via com bons olhos a crescente influência dos jesuítas e dos cristãos no Japão e já no final da sua governação entendeu, por influência dos ingleses e holandeses expulsar em 1614 todos os jesuítas e padres do Japão. Seguiu-se um período de várias décadas de dura e cruel perseguição aos padres e cristãos (que entretanto já estavam disseminados por várias regiões do Japão), com o propósito de eliminar por completo o cristianismo do Japão. Foram mortos milhares de cristãos (incluindo crianças, mulheres e idosos) queimados na fogueira, por enforcamento, por crucificação, por horrendas torturas (para que os cristãos se tornassem apóstatas). Contudo apesar de todas estas práticas e da crescente tortura até 1632 nenhum missionário se tinha tornado apóstata. Isto foi quebrado nesse ano quando o Superior português Cristóvão Ferreira fez o sinal de apostasia. Ferreira era um dos mais importantes jesuítas no Japão (vivia aí já há 33 anos) e sua decisão foi muito marcante doravante no seio da comunidade cristã no Japão. O segundo grande revés ocorreu na célebre Rebelião de Shimbara (próximo de Nagasaki) onde ao longo de 4 meses foram mortos cerca de meia centena de milhar de campesinos cristãos, incluindo alguns padres. A partir dessa data o Japão fechou as 'suas portas' ao mundo e o cristianismo foi ainda mais perseguido.

Apesar de todos estes acontecimentos o cristianismo continuou a ter ao longo dos séculos seguintes milhares de professos (mas de modo secreto) no Japão, sobretudo na ilha de Kyushu, até que em 1865 quando o Japão voltou a abrir-se ao mundo os cristãos puderam de novo realizar suas práticas religiosas de modo livre e público. Inclusive em 1895 foi inaugurada a catedral de Santa Maria em Nagasaki, a maior catedral católica em todo o Oriente (destruída depois em 1945 pela bomba atómica).



O "Silêncio" de Shusaku Endo
Este livro, escrito enquanto Endo viveu em Nagasaki, é uma história baseada em factos reais e retrata a entrada secreta e posterior estadia de dois missionários jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Francisco Garrpe, e mais 8 religiosos europeus, em 1643, no Japão, numa época de grande perseguição aos cristãos. Capturados num curto espaço de tempo, todos eles apostataram depois de terem passado longas e terríveis torturas. Sebastião Rodrigues e Francisco Garrpe tinham sido alunos de Cristóvão Ferreira e não acreditando que este tivesse feito apostasia decidiram ir ao Japão descobrir a verdade dos factos.
Não me vou estender mais pois os resto podem ler no livro.

William Johnson, o primeiro tradutor da obras para Língua Inglesa tem uma passagem interessante no prefácio do livro: «O Japão [...] absorve toda a sorte de ideologias, transformando-as em si mesmo, e distorcendo-as no processo de fazê-lo. É a teia de aranha que destrói a borboleta, deixando-lhe apenas o esqueleto feio.» Já Endo refere que «os japoneses devem absorver o cristianismo sem o suporte de uma tradição, história, legado ou sensibilidade cristã», devido às grandes difereças culturais e civilizacionais.


O novo filme de Martin Scorcese
Martin Scorcese escreveu o primeiro esboço do argumento adaptativo de o "Silêncio" de Shusaku Endo, há cerca de 10 anos, em parceria com o argumentista Jay Cocks. Foi ao longo dos anos esperando avançar com este projecto, conseguindo finalmente reunir as condições necessárias. As filmagens vão ser efectuadas este Verão em Vancouver, no Canadá.
É a segunda vez que um filme Scorcese aborda directamente a temática do Cristianismo/Catolicismo, depois da "Última Tentação de Cristo" que gerou bastante polémica na altura. Este novo filme muito dificilmente não suscitará polémica no Japão.
Os japoneses são comummente retratados nos filmes americanos e europeus sobretudo em histórias pouco felizes relativas a episódios da Segunda Guerra Mundial, mas até aqui nunca um grande realizador (não japonês) tinha abordado outros períodos da história de forte controvérsia do Japão (se não incluirmos o " O último Imperador").
Uma coisa é certa, o Japão não ficará em silêncio com este novo filme de Scorcese.

Comments:
muitissimo obrigado por indicar meu site...agradeço de coração!!1

marcos aguena
portal do japa
 
Saúdo este blogue dedicado ao Grande Japão. Também tenho um em www.japonmonamour.blogspot.com. Creio que gostará de ver.
 
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